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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

(Denúncia) "machismo na cena Straight Edge de São Paulo" 01/12/2013

Por Frente de Libertação Feminista 01/12/2013 às 16:57 retirado do CMI Brasil

O objetivo desta carta aberta é denunciar a discriminação contra a mulher que se perpetua no âmbito dito libertário, expondo em repúdio o machismo velado recorrente em um meio no qual teoricamente se acredita em igualdade, porém na prática propaga o oposto.

O objetivo desta carta aberta é denunciar a discriminação contra a mulher que se perpetua no âmbito dito libertário, expondo em repúdio o machismo velado recorrente em um meio no qual teoricamente se acredita em igualdade, porém na prática propaga o oposto. A carta aberta evidencia uma conduta política falha e funciona como uma ferramenta autodefesa legítima, com a qual pretendemos deixar visível que não estamos dispostas a compactuar ou permanecer coagidas por atitudes que são reflexo do patriarcado, tais posicionamentos fascistas então presentes em nosso meio específico ou em qualquer outro espaço social. É um passo para pôr fim à dominação que prevalece sobre nós.

No comunicador WhatsApp forma-se um grupo composto somente por homens, denominado ?KINGS? (?REIS?). Como supostos reis, eles se viram em poder de decisão perante os outros, escolhendo quais homens participariam do grupo e o conteúdo ali compartilhado. De maneira criminosa, eles expuseram mulheres em sua intimidade por meio de fotos que relatavam relações pessoais até o chamado ?revenge porn? (?pornô de vingança?).

As mulheres estavam ali contra suas vontades, sendo expostas por sujeitos que visavam compartilhar suas "conquistas" sexuais em uma disputa de ego, assumindo o papel de macho alfa. Essa e outras humilhações para as mulheres tendem a serem vistas de forma deturpada, a culpabilizá-las. Contudo, insinuar isso é inverter os papeis, transferindo do agressor para a vítima a responsabilidade por atitudes desrespeitosas. É penalizar a mulher de mais uma forma, incitando a contínua reprodução da violência contra sua liberdade.

Em consideração ao fato de que todos esses homens estão vinculados à cena hardcore straight edge de SP, cobra-se uma postura imediata destes que pregam uma visão horizontal e igualitária sobre palcos e em turnês enquanto alimentam suas contraditoriedades nos espaços privados.

A partir do contato com este relato, é importante frisar que o não posicionamento é uma forma de cumplicidade; é compactuar com essas atitudes, coagindo as vítimas a se calarem visando não tornar notório este inadmissível acontecimento. Já que há opressores entre nós, é de interesse público o combate, de todas as formas possíveis, aos mesmos. Para que mulheres não sejam mais feridas pelo machismo e aos poucos homens que se opõe a essa opressão, deixamos explícitos nesta carta os nomes dos membros do KINGS, bem como as bandas em que tocam e os coletivos dos quais participam.

É com muita preocupação que não só optamos como pedimos o BOICOTE dessas pessoas e, consequentemente, de suas atitudes e dos projetos, bandas e coletivos com os quais estão envolvidos. É necessário que haja tal postura principalmente daqueles que relacionam-se com esses homens nos âmbitos citados.

Xavero Costa - Still X Strong, La Revancha, Duo, Coletivo Verdurada, Coletânea "Não Somos os Primeiros. Não Seremos os Últimos", Sujeira WebZine, DisXease; 

Bruno Lourenço - Direct Shot;

Athos Machado - Still X Strong, Inner Self, DisXease, Disciplina Crew; 

João Pedro Zeitlin (Jaypee) - Direct Shot, Coletânea "Não Somos os Primeiros. Não Seremos os Últimos", Stand Hard, Calças de Veludo, Coletivo Verdurada;

Noel Cabrera Medeiros - Coletivo Verdurada; 

Julio Novaes (Julio Gordo) - In Your Face, Inner Self, Disciplina Crew; 

Bruno Augusto (Bruno Maromba) - The Only Way; 

Bruno (China) - Days of Sunday; 

Daniel Lopes (Azeitona) - In Your Face, Baiano Loko (crew/recs), Disciplina Crew; 

Bruno Augusto - The Only Way, Coletânea "Não Somos os Primeiros. Não Seremos os Últimos" 

Willian Lima - Days of Sunday; 

Jão Teixeira - Werewolf, Disciplina Crew. 

As informações aqui compartilhadas são extremamente sérias e não devemos nos coibir perante este fato. O ocorrido relatado é verídico e injustificável:

Descobriu-se a existência de um grupo no Facebook chamado KINGS, criado por garotos que fazem parte do circuito de hardcore em São Paulo-SP. Um grupo explicitamente direcionado a homens, os quais não cogitavam nenhuma possível participação feminina. É necessário lembrar que, segundo o discurso destes mesmos homens, as poucas mulheres que compõe tal ?cena? são "bem recebidas e tratadas sem distinção de gênero". No entanto, a realidade comprova o contrário.

Os detalhes do conteúdo do grupo nunca foram discutidos de forma aberta, porém constantemente citados como referência indireta a algum tipo de ?piada interna?.

Incialmente, o grupo foi criado no Facebook para se resolver questões rotineiras, marcar encontros e divulgar projetos pessoais. Porém, em meados de Janeiro de 2013, o grupo migrou para o Whatsapp e uma parte das pessoas que estavam presentes no grupo original foi excluída por não possuir um celular sofisticado o suficiente para ter o aplicativo ou por ter sido julgada como não conivente.

A partir da mudança para o Whatsapp, o conteúdo publicado mudou de forma: ao invés de serem expostos assuntos relacionados à cena, parte considerável do conteúdo tornou-se fotos de meninas nuas ou semi, com as quais eles se relacionavam pontualmente ou mantinham estabilidade, incluindo ex companheiras, bem como fotos que expunham a intimidade de suas relações sexuais. Da mesma maneira, havia imagens deles próprios nus, com um intuito cômico e, segundo entendido, para afirmação de suas "masculinidades". Em meio a isso, alguns membros específicos, apesar de terem compactuado com a situação por certo tempo, optaram por sair do grupo.

Não só foram feitas montagens debochando de pessoas ditas malquistas, como também de amigxs dos KINGS. Uma mulher considerada amiga deles se tornou alvou de uma montagem que desqualificava o posicionamento feminista assumido por ela. Por mais pontual que pareça o exemplo citado, é importante considerá-lo, pois foi a partir dessa imagem que teve-se conhecimento sobre o nível do grupo KINGS.

A situação veio à tona quando Marcelo procurava no celular de Willian Lima um vídeo de banda e encontrou a montagem. No mesmo momento, registrou-a em seu celular e guardou-a por aproximadamente dois meses, em dúvida sobre como proceder em uma situação tão delicada, considerando que ocasionalmente causaria conflito. Passado esse tempo, decidiu enfim contar ao alvo, entendendo seu direito de saber, já que a mesma mantinha laços próximos de amizade com as pessoas que debocharam de seus ideais sem que ela consentisse, ou até mesmo soubesse. Com razão, ela sentiu-se verdadeiramente desapontada, mas decidiu não tomar qualquer atitude até que fossem divulgadas mais informações sobre o conteúdo do grupo.

Em 14 de Setembro de 2013, ocorreu a festa de aniversário de Marcus Campos na qual estava presente boa parte dos integrantes do grupo. Em um determinado momento, esse alvo conseguiu ficar a sós com o celular de um dos integrantes, sendo o suficiente para que confirmasse algumas suspeitas anteriores e achasse ainda mais conteúdo satírico em relação a amigxs e diversas fotos de garotas nas condições pornográficas involuntárias supracitadas. Material este que foi divulgado com uma quantidade seleta de pessoas no decorrer das duas semanas seguintes.

Somente (SOMENTE) neste momento é que se comprovou (entenda-se: a primeira vez que alguém fora do KINGS teve contato direto com o arquivo do grupo) que sim, existiam fotos de meninas nuas em momentos extremamente íntimos divulgadas indiscriminadamente. Dentre outras pessoas extra grupo que viram as fotos, grande parte se prontificou afirmando que o rosto das vítimas não aparecia e que não era possível identificá-las. Além disso, constataram-se outras montagens debochando de terceiros e print screens de conversas pessoais desses membros com indivíduos de fora.

Com base nessas descobertas, indignada, ela decidiu dialogar com os envolvidos na situação. Basicamente, a reação da maioria foi procurar se justificar com o COMPANHEIRO da mesma (foi colocado em caixa alta para que todxs percebam o quão patético foi tentar resolver um problema impregnado de machismo, no qual até mesmo vítima é desqualificada enquanto ser humano passível de respeito, de maneira que o diálogo se deu com o companheiro dela). Marcou-se uma reunião para a qual ela NÃO foi convidada a comparecer; somente após seu companheiro insistir para que não fossem criadas intrigas por esse motivo, é que ela também entrou como participante importante da conversa. Claro que nenhum resultado eficaz poderia sair de uma conversa em que a linha argumentativa baseia-se em assumir o erro e a infantilidade, já que são pontos óbvios, explicitamente gritantes, e que não precisariam nem ser citados, quiçá se tornar a base de argumentação.

Não se sabe o que exatamente foi conversado nesse encontro, nem se houve apenas um, porém houve marcantes consequências; a história mudou de rumo. Ao contrário do esperado, essa conversa foi o que bastou para que ela (o alvo) entendesse qualquer carta de repúdio ou ação direta como exagero. Como um deles se referiu posteriormente ?o NADA virou TUDO?, já que o que aconteceu no grupo era ?apenas uma brincadeira?, ignorando assim o fato de haver outras mulheres oprimidas, expostas e ridicularizadas por eles. A revolta foi cessada.

O esforço para que a situação não tomasse sua devida proporção foi tanto que mesmo após o vazamento de parte do ocorrido, duas das vítimas dos crimes de exposição somente tiveram suas posições esclarecidas quando foram contactadas, ao final de Setembro, por um informante não identificado, o qual dizia-se na intenção de ajudá-las.

Após essas outras vítimas terem sido alertadas, os integrantes do grupo sentiram que a situação estava saindo do controle e decidiram tentar mudar seu foco. No dia 23 de Outubro de 2013, no evento Political SxE, os autointitulados KINGS procuraram Marcelo e o intimidaram em uma roda, apontando-lhe dedos, culpando-o por não ter sido cúmplice e por ter compartilhado com sua amiga a montagem sobre a mesma. Por esses motivos, ele foi coagido e ?expulso? da cena hardcore em SP, além de ter sofrido ameças a sua integridade moral e física. Vemos claramente em tal atitude a reafirmação da prática opressora dos integrantes, que consideraram seus poderes suficientes para que os erros cometidos não vazassem, tirando o direito de esclarecimento das vítimas.

Esses agressores buscaram de forma isolada eximir-se da culpa em conversas particulares, conforme ia se propagando o acontecimento e as indignações iam surgindo. A maioria das conversas era com pessoas consideradas ameaças em potencial (com quem não valeria a pena alimentar desavenças) que não estavam bem interadas da situação. Até então, poucos se retrataram diretamente com as vítimas.

Exatamente um mês depois, em 23 de Novembro de 2013, no evento 'Hardcore na USP', a banda Deaf Kids, ciente do ocorrido, abriu espaço a uma das vítimas para que ela tornasse público o que muitos já sabiam, porém não se posicionaram. Infelizmente, a mensagem direcionada aos KINGS não pode chegar a todos.

Logo após essa data, houve uma vaga e fraca retificação, via Facebook, por parte de alguns dos envolvidos nessa atrocidade. Frases essas tão pobres que não se deram ao trabalho de articular a ela uma fala - simplesmente copiaram e colaram um texto produzido sobre palavras vazias e, o mais triste, falsas. À essa maneira os KINGS acharam que assim conseguiriam justificar o injustificável.

Um ponto importante é contextualizar que algumas bandas compostas por membros do grupo KINGS têm em seu histórico músicas pró-feministas sobre a libertação da mulher e o direito ao aborto (Direct Shot - Her Life, Her Rules) e sobre a opressão social sofrida pelas mulheres (Girl - Still x Strong). Portanto, nota-se que seus discursos são pura e rasa demagogia, já que os mesmos constroem suas imagens de homens politizados e, por isso, ?evoluídos?, porém destroem e humilham as mulheres em espaços privados tanto quanto podem.

Dois meses se passaram desde que o conteúdo do grupo veio a público. Esses dois meses e o apoio feminista foram necessários para houvesse união entre as mulheres e para que as informações aqui presentes fossem coletadas e devidamente entendidas. Tais fatos foram de extrema importância para que essa carta pública de repúdio fosse concretizada e escrita de forma a justificar sua existência.

Como militantes, não pedimos esclarecimentos por parte dos envolvidos, pois não existe pedido de desculpa que amenize o irreversível e inexplicável. Também não consideramos os nomes aqui citados uma forma de injusta exposição, pois esse documento é um meio de reação a atitudes grosseiramente machistas e sexistas. Que sirva de estímulo para quem quer que seja oprimido retrate suas experiências e denuncie seus opressores. Assim, podemos dizer que nos manteremos firmes e atentas a qualquer situação semelhante em que algum homem tente exercer seu fictício poder sobre nós, mulheres.

Há certa urgência em nos posicionarmos claramente em relação às atitudes que presenciamos e ao meio em que vivemos, pois ser imparcial com o machismo e outras formas de violência contra minorias é, como já foi dito anteriormente, compactuar e fortalecer com tais atitudes o que é extremamente opressivo. Assim, é interessante que sejam promovidos debates e ações que têm como foco o machismo na subcultura libertária, a importância da participação autônoma da mulher e a opressão de gênero.

A luta feminista se pauta no respeito mútuo entre os seres, na vontade de ver fim a manipulação que os homens exercem sobre as mulheres. Baseia-se no direito de ir e vir com segurança e não ser assediada ou escrachada por eles. Na participação igualitária em meios sociais com o valor de sua individualidade renconhecido e por vontade própria, não como companheira coadjuvante de algum homem. Na negação das cotas estabelecidas por homens, socialmente dominantes, que nos julgam e estipulam com quem devemos nos relacionar, o que devemos favores a eles quando somos minimamente aceitas, se somos merecedoras de estar entre eles, suas piadas e bandas e se representamos algo coletivamente. Feminismo também é destruir a barreira da aprovação masculina. Não precisamos de alvará, pois quando acredita-se em igualdade não há julgamento a respeito de quem é melhor ou pior, útil ou inútil. Estamos falando de humanos; de mulheres que não existem para a satisfação masculina e que não nasceram com o doentio privilégio de ser homem.

Paralelamente a essas decorrências na subcultura, foi noticiado pela mídia dois suicídios de mulheres expostas por meio do ?revenge porn?, reféns da mesma situação, na qual vigora a supremacia sexista. Então, deixamos a questão: até onde chega a falta de bom senso, o desrespeito com o próximo, a falta de preocupação com a liberdade e com os direitos básicos de todo ser humano? A agressão que sofremos não é somente devido a apropriação de nossas imagens, mas também psicológica e moral. O título de brincadeira não nos convence e não descaracteriza o fato de ser um crime!

Referências:
http://jezebel.com/one-womans-dangerous-war-against-the-most-hated-man-on-1469240835
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/10/whatsapp-pornografia.html
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/11/jovem-se-suicida-apos-video-intimo-vazar-whatsapp.html
http://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/a-cretinice-de-quem-vaza-e-compartilha-video-intimo-5365.html


Sobre a falácia da neutralidade no humor:
https://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54

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