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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

(Denúncia) "resenha e omissão machista do blog Intervalo Banger sobre a banda SaturninE"

carta-denúncia contra o blog “Intervalo Banger”
retirado do blog Não Passarão!

Essa carta tem como intuito denunciar e problematizar a misoginia dentro das cenas metal/punk. Porque casos como esses não podem mais passar batido.

No dia 06/08/2014, fazendo uma pesquisa no google sobre a banda SaturninE, nos deparamos com uma resenha tão problemática que daria pra escrever um zine todo sobre ela. Essa resenha estava no blog “intervalo banger” (http://intervalobanger.com/), e logo no título, uma carga pesada de machismo: “SaturninE, ou ‘as mina pira nuns sludge/crust'”. Na primeira linha da resenha, seu autor, “Barão”, destilava toda sua misoginia com frases como “geralmente as bandas de mulheres são muito mais bonitas do que ouvíveis” e “não consigo listar nem 2 bandas de mulheres que ouvirei pra vida inteira”. Esse tipo de resenha veiculada em um blog “grande” sobre a cena metal/punk não é apenas absurda, mas também um desmerecimento por todas as mulheres que fazem parte dessa cena, seja ouvindo, tocando, montando bandas, frequentando os espaços de show e/ou discussão. Portanto, esta carta é um ato político e voltada à todas as cenas metal/punk/crust, afim de problematizar o que isso significa para nós, mulheres.

O post que foi feito no ano de 2012, passou dois anos com o seguinte comentário (de autor desconhecido) no topo das visualizações “bocetudas gostosas do rock”. Nos sentindo profundamente desrespeitadas, questionamos os motivos pelos quais aquela postagem havia sido feita, e aquele comentário permitido lá por dois anos (toda a discussão pode ser vista em prints em anexo). Um dos autores do blog Thiago Vakka (banda Black Coffins e Jupterian) respondeu imediatamente, na página do blog no facebook, com um print do meu comentário e o subtítulo “Olha pai, uma feminista emocionada”. Imediatamente, após essa exposição, várias pessoas iniciaram uma discussão nos comentários. Tanto opiniões horrorosas e tipicamente machistas foram vistas, como questionamentos à postura do blog, a exposição da autora do comentário, e a denúncia, de que não era a primeira vez que a misoginia (dentre outros tipos de ódios disseminados) dava as caras naquele blog. Mediante aos ataques, Thiago Vakka deletou o post misógino sobre a banda Saturnine, o post de exposição com a frase infeliz (sobre a feminista emocionada) no facebook, e se desculpou publica e insatisfatoriamente em sua página. Claramente, depois de perceber o “tiro no pé”, o autor do blog excluiu todas as provas de que alguma coisa havia sido questionada, de que uma discussão e um conflito haviam ocorrido. Uma das desculpas para que o comentário misógino e desrespeitoso permanecesse lá por tanto tempo, foi que os autores do blog não são responsáveis pelo que seus leitores postam. Diante desta, respondemos que eles são absolutamente responsáveis pelo conteúdo visualizado no blog. E diante do argumento de que “o comentário estava ali a muito tempo, temos muitos comentários para moderar” bom… o comentário misógino passou dois anos exposto no blog, passou despercebido? O comentário da “feminista emocionada”, que questionava a postura dos autores do blog, foi exposto e ridicularizado em menos de uma hora após ser feito.

Antes que você pense que está ok criticar uma banda pela “sonoridade”, já adiantamos que não se trata disso, esse não foi o caso. Se trata de criticar uma banda POR SER COMPOSTA POR MULHERES. Usar de argumentos como “são mais bonitas do que ouvíveis” e “não consigo listar duas bandas de mulheres que eu goste” não são críticas ao som da banda, e sim, crítica à produção cultural de mulheres. E isso é misoginia.

Um blog que divulga tantas bandas crust/punk, com letras politizadas, escrever uma resenha desse tipo é inaceitável. A misoginia em quaisquer espaços que desejemos habitar, é inaceitável. A resenha em si, seria inaceitável em qualquer contexto – mas num contexto de um ambiente que se diz disposto a desconstruir, construir, discutir e fazer política é pior ainda. Porque? Porque nós, mulheres, não construímos bandas para agradar os homens. Acreditem, isso não tem nada a ver com vocês. Nós construímos bandas porque nós curtimos som, porque nós podemos e desejamos fazer, para nosso empoderamento, para nos identificarmos e para soltar nossa voz que dificilmente aparece nos espaços públicos, e tem de vencer várias barreiras, combater e desviar armadilhas e sufocamentos para ser ouvida. É com essa situação que nos deparamos agora: Não permitimos que nem nossas bandas, nem nossos corpos, nem nenhum âmbito de nossa produção cultural sejam fetichizadas, nunca nos colocamos a essa disposição e não permitiremos que aconteça. Por aqui, nos espaços que também são nossos, não submeteremos nada de nós a passar por clivo masculino algum.

Sobre a reação dos colaboradores do blog com o comentário de uma mulher que os confrontou: Não, nós não somos feministas emocionadas. Nós somos feministas, nós somos mulheres, e não deixaremos que vocês tomem a cena pra vocês, nós nos indignaremos SIM e responderemos SIM a cada comentário misógino que aparecer. A cena é composta por nós também, e não vamos disputar espaço nenhum, porque ele é nosso por direito.

Carta construída coletivamente por mulheres.

Prints do post no blog Intervalo Banger e da exposição feita no facebook:






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